Após

Falavam em caos, se mudanças não fossem feitas com urgência. Aquele velho discurso. Como sempre, essas mudanças nunca chegam, pela simples razão de que ninguém quer mudar nada além dos condutores da carruagem. Então, a coisa ficou feia.

Imagine os recursos que existem, com a mesma abundância com que são retirados de circulação pelos impostos, de repente começarem a escassear com a atividade comercial entrando em espiral de queda, enredada no círculo vicioso da carência, que à medida que vai aumentando, multiplica-se. Então, veio a fome.

Como se não bastasse, o clima piora bastante. A seca nunca vista torna o país impraticável. Há quebra de safra, de bancos, de tudo. E queimadas espontâneas (e provocadas). Mortes. Todas as maldições previstas vão tomando corpo ao mesmo tempo, mas sem chegar aos pés do gigantesco arrependimento coletivo que fica minúsculo ante a possibilidade de recuar. Então, de repente, a guerra explode.

Ótimo negócio para os que vendiam armas, os que prometiam paz e prosperidade futuras, seu ponto alto de eficiência acontecendo ao desbastar do contingente de desempregados, expurgando o ódio em excesso, quando um silêncio gordo e lento vira a esquina sobrepondo-se ao vácuo daquele ponto da cidade onde os pobres se amontoavam antes dos acontecimentos. Então, o clarão seguido de vendaval precede a chuva que dura muitos dias.

O combustível, quando está sobrando, pode parar tudo se uma fagulha o encontra, como é do conhecimento de todos. Quando a inflamação passa do ponto, vira necrose. O dinheiro perdeu o valor que a vida já não tinha. As armas, a utilidade. Então, veio o armistício.

 

 

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Revanche

sangue na parede

Eu não perdoo o filho da puta que puxou o gatilho naquele carnaval. Nunca vou perdoar. Não transmutei meu ódio em compaixão como prego nas entrevistas coisíssima nenhuma! O bisturi nas mãos de um bêbado é um revólver. Milito pelo desarmamento porque sei que com uma arma na mão – e eu seria o primeiro a ter uma – iria ao inferno para enfiar o cano na boca daquele desgraçado. Sei quem ele é. Sei onde ele vive. Sei até o nome dos membros da família, porque essa sub-raça coloca tudo nas redes sociais.

Está tudo lá. Hospedagens-experiência, jantares com sorrisos forjados em procedimentos ao lado das opiniões equivocadas que ninguém pediu, junto com o resultado do vestibular dos filhos que serão doutores “como o vovô”.

E os exames de DNA, atestando a procedência “humilde, mas europeia”?

E a fé negociada com o deus (“Gratidão! Gratidão!”) que lhes franqueou essa Disneylândia?

E a constrangedora intimidade virtual com celebridades?Até o número de pregas do cu essa gente divulga.

Ah, não esquecer das garrafas de bordeaux e dos quilômetros rodados em blindados lustrosos de sangue e suor alheios. Tudo isso e muito mais, incluindo o apoio ao governo que representa “o novo” na política, que logo deletarão de vergonha.

Jamais mataria um filho dele. Nunca o privaria do convívio com a companheira. Ás vezes, quando perco o sono, o sol se levanta e eu lá, imaginando formas lentas de tortura. Não consigo perdoar. Não consigo. Foi um erro grotesco de terceiranista, o álcool não teve nada a ver com isso.

Médicos. Raça desgraçada. Senhores da vida e da morte, né? Vou mostrar pra ele quem é que decide as coisas por aqui. Uma existência devotada aos direitos humanos antes dele nascer, atormentado em ser justo, mesmo condenando quem merecia. Nunca saí de um tribunal com a alma leve. Nunca!

“Pelamordedeus, Dr. Pacheco, o senhor não pode ficar de pé!”

“Qual dessas portas é a do banheiro?”

Quando o carro despencou na ribanceira eu perseguia o canalha em imaginação. Ia esmagar aquele rosto contra o vazio ali na frente. Por ironia, vim parar no hospital em que ele trabalha. Vou descobrir o turno do carniceiro. Vou mostra pra ele a potência perfurocortante da vingança. Chegou a minha hora. Chegou a minha vez. Agora, sou eu e ele. A Justiça fica de fora. Cega.

Ele não vai lembrar de mim, teve tempo suficiente para esquecer. Um juiz – com J, de Justiça, maiúsculo –, não esquece o olhar do condenado. Nenhum salário paga a paz da vocação. Julgar não cabe a levianos gananciosos pela admiração materna. Condenar não é apanágio de malformados gerados no óvulo da vaidade de província chocado na estultícia do progenitor. Ele vai aprender a ser gente!

Hoje, sonhei que estava numa praia de areia muito branca. Ventava sem parar. A franja do mar perdia-se da vista e o sol era tão forte que eu mal conseguia abrir os olhos. Fazia força, mas era quase impossível. O ofuscamento me paralisava as pálpebras, agora fechadas. Tentei abrir os olhos novamente e não consegui. Um desespero crescente foi tomando conta de mim, que continuei tentando com vigor. Me esforçava, me esforçava… Abri os olhos. Acordei. Lá estava a cara dele. Bem na minha frente, debruçado em cima de mim, estuprando minha retina com a perfeição ortodôntica do sorriso.

“Como é que o senhor está?”

Pena que eu não tinha nada ao alcance da mão.

A cepa superior de um médico com alma o avizinha aos santos, mas o sol de sujeitos como ele é a luz verde do dinheiro. Não estão nem aí com o resto da humanidade que não veste branco. Conheço assassino serial com mais coração. Esses olhos arrogantes. Essa sofisticação de shopping center.

“Se não fosse o doutor Celso, você não estaria aqui, Pacheco. Foi uma operação delicada, você estava praticamente condenado! Te tiraram das ferragens. Foram 16 horas na mesa de cirurgia! Esse homem salvou sua vida, Pacheco. Você guarde bem essa data. Nasceu de novo, meu amigo. Nasceu de novo. Um milagre!”

O dom de perdoar, nunca tive. Cozinhar meus desafetos no caldo grosso do ressentimento sempre foi vício. Vergonhosamente, quase esporte, tenho que confessar. Dizem que sou generoso e eu sou mesmo. Com tudo. Com dinheiro, mais ainda. Sempre gastei o que tinha e o que não tinha com os outros. A única coisa que consigo guardar é rancor.

Quem nessa vida não tem seus defeitos?

 

Sexta-feira

no future

“Eu não acredito”, você escreveu pelos muros da cidade como um adolescente, junto com rabiscos abstratos. E na folha de rosto da agenda, como se ainda fosse universitário. E com batom, no espelho do motel de classe, fantasiando um quarto vagabundo de beira de estrada que aceitasse dois homens no pico da virilidade – somos dados a fantasias desde que nos conhecemos por gente, mas o batom tava lá, esquecido por alguém que curte rebocar a boca de vermelho sangue. Dois caras que já passaram dos quarenta com suas barrigas peludas e barbas sendo invadidas pelos fios brancos, os corações cansados de amar, batendo com força um contra o outro congestionados de histórias sem final feliz e por alguma patologia silenciosa como as que quase todos carregamos nos dias de hoje.

Você sabe faz tempo que tudo é ilusão. Ri da porra toda. Vira um gole do 12 anos que trouxe no porta-luvas. Vira moleque. Manda outra, depois gargalha com os olhos brilhantes em mim. Esses olhos que há décadas nunca me esconderam nada. Olhos corajosos de um cara cheio de bravura. Desajeitado com as coisas do afeto. Acostumado a ser bruto por fora, doce por dentro. Me dá vontade de te abraçar forte, te proteger contra o que eu sei que não há proteção, como você faz tanto comigo. O mundo já era essa escrotidão antes de a gente nascer.

Na estrada, pegamos o final do eclipse e você lembrou que era sexta, dia internacional da alegria proletária. Do reinado noturno da esperança dos assalariados madrugada adentro refestelados em bebida e cigarro baratos. Sexta é de fé e fissura (que sempre andam juntas), o final de semana de sonho que redima os cinco dias dito úteis divididos em horários comerciais que mal pagam as contas, esnobando a vida como se houvesse outra. Esmagando o bagaço que já não tem caldo. Espremendo forças ao esgotamento pra tirar algum sumo. “Mas os patrões estão na mesma”, você lembrou. “Olha a gente aqui.”

Patrões, mas um tanto operários. Somos é escravos com algum dinheiro. Um erro de contabilidade que nenhuma reforma fiscal vai consertar. Falimos grandemente. “Eu não acredito. Não acredito que as pessoas se olhem no espelho e não percebam que se morre um pouco todos os dias até chegar no último.” Que um curso qualquer vá transformar seu futuro ou que ascender na hierarquia corporativa signifique alguma coisa além de trocar a figurinha rara da existência plena pelos weekends de consumo premium, completando páginas do álbum do vencedor (pulando as imagens das últimas horas tristes do domingo, naturalmente, quando indutores de sono e orações para o deus de sua preferência terão o mesmo efeito passageiro e acalentador).

Você sempre teve pena dos estagiários. Eu achava isso bonito em você. A ponta de humanidade. O olhar que ficava triste quando via gente fodida. “Eu não acredito que agradecendo injustiças, nos tornando mansos, vamos mudar alguma coisa”. Também não acreditava que tirando os prazeres gordurosos e sanguinolentos da mesa a saúde seria resgatada de corpo e alma. “Não acredito que ainda dê tempo, nem que o amor nos proteja. Acredito não.” Sempre tão seguro, andava se sentindo exposto.

Eu tentava explicar Aquário na casa VIII do teu mapa e o Marte retrógrado com a Lua Cheia eclipsada lá e os transtornos que matam e mantém ao mesmo tempo e durante tanto tempo e sobre esse sentido da vida que você percebe que não existe mais porque nunca houve e percebeu isso só agora porque fazia parte do contrato que você fez consigo pra suportar tudo até aqui e como dentro de nós morava tanta gente e como por isso a gente precisava de um líder que organizasse e fizesse funcionar essa bagunça toda e que ele talvez não tivesse mais motivos pra continuar seu trabalho e tivesse chegado e dito pra si “Eu não acredito.” Você riu. Anarquista desde sempre, nunca acreditou em líderes, partidos, assembleias “e essa merda toda”. Ainda tachou minhas metáforas de bregas, comodistas, imprecisas, ingênuas, pequeno burguesas. Você dizia “a política é um mal necessário. É igual o trabalho”. Não acreditava, mas aceitava. Suportava por conveniência e “porque somos adultos, porra”. “Livre-arbítrio sempre achei truque, mas acreditava em liberdade. Hoje eu vejo, tudo ilusão.”

A gente entrou, gozou, tomou banho, uísque e foi embora. Quando você me deixou em casa e te lembrei o quanto te amava e de como você era importante pra mim, você me falou de apego. Eu reforcei, tudo ia se resolver, tudo passa, isso tudo também ia passar como tudo tem passado até aqui. O futuro seria melhor, o Brasil sairia dessa, o mundo estaria prestes a entrar numa nova Era. “Você sabe que eu não acredito”.

Foi a última coisa que ouvi de você. Foi o que eu repeti na frente do espelho. O sangue que já não cabia dentro de nós, escorrendo. Aquela gente toda sendo despejada. Um bando de sem-teto – homeless, com o charme caipira e irresistível do anglicismo.

Foi tudo rápido como são as mudanças quando não tem mais jeito.

Pena que você não quis esperar. Você não acreditava. Entendo. Sempre entendi. Nunca acreditou. Eu também deixei pra lá. Já era tarde. Já era sábado. Eu teria o resto da vida pra tentar acreditar.

Feladaputas

dedinho no olho

Antes de iniciarmos, adendo importante. À guisa de preâmbulo e mea culpa, pedimos perdão às putas e aos seus que a priori nada têm a ver com o tipo aqui descrito. Ao utilizarmos o termo grafado feladaputa nos referiremos às variadas cepas de canalhas que, por esporte, preguiça ou puro prazer valham-se de expedientes desonestos para satisfazer das mais básicas pulsões às metas estratosféricas.

O feladaputa é um sujeito ubíquo. Podemos encontrá-lo em todas as famílias, na vizinhança, em salas de aula, fóruns e tribunais. Ainda assim, costumam ser distintos, sobressaindo à multidão naturalmente.

Há professores feladaputas, pastores feladaputas, engenheiros, médicos, advogados, juízes (data vênia!), garis. Também os há entre presidentes, domésticas e pedreiros, assim como entre atletas, diplomatas, psicanalistas e atores. O meio musical é pontuado por eles. Nas igrejas em geral, principalmente irmandades onde reine o moralismo figadal sempre de mãos dadas com a hipocrisia, feladaputas fazem coro. Onde há fiscal de cu, haverá um feladaputa potencial fazendo serão. As repartições públicas onde abundam estão aí para confirmar. Da próxima vez em que visitar alguma, observe como são verdadeiros criatórios do gênero.

Na empresa em que você dá expediente também deve haver ao menos um desses seres desprezíveis. Costumam viver nas sombras quando sua vocação não é evidente. Se a personalidade grita, o feladaputa exibe-se pândego envergando a feladaputice de maneira tão natural como se colhesse uma fruta no pé. É de dar dó aos mais compassivos; medo aos temerosos; admiração enojada àqueles sensíveis às imperfeições do caráter humano.

O feladaputa raiz não tem amigos. Quando os tem, ou são feladaputas como ele ou pessoa tão chata e tão dada a chatices e que tais que gente alguma os quer por perto além do necessário. Não o feladaputa. Nunca. Este as acolhe amiúde, menos por piedade que pelo puro interesse. Nunca se sabe de quem precisaremos amanhã, não é mesmo? Absolutamente prudentes, feladaputas são dados à prática do networking.

Não há muito como evitá-los, embora não faltem maneiras de tratá-los numa espécie de prática de redução de danos.

Vamos a ela:

a) Jamais bata de frente com um feladaputa. É contraproducente. Seja cínico tanto quanto. Haja com dissimulação. Esbanje falsa alegria ao encontrá-lo e ganhará sua simpatia imediata;

b) Se você é do time que preza quantidade à qualidade, lidar bem com feladaputas é garantia vantajosa de pontos no xadrez da socialização;

c) Siga o feladaputa como um investigador à rota do dinheiro sujo e você encontrará a mina de onde emana o poder. Feladaputas são crias do poder; não raro, criadores entre os mais talentosos. E, no caso de lhes faltarem colhões, servis puxa-sacos aferrados às bolas alheias em simbiótica vassalagem. Não se engane, esses inofensivos carrapatos são os mais perigosos. Não é à toa que a política seja seu habitat;

d) Só se envolva romanticamente com um feladaputa se, além de masoquista, possuir tendências suicidas. Eles jamais saberão o que é amar;

e) Sexo com feladaputas pode ser emocionante como a prática de esportes radicais. Prepare-se para as doenças venéreas. São a única certeza além do desprezo pós-coito dessa linhagem sedutora de psicopatas.

Nossa sugestão ao final deste pequeno tratado é que você se entretenha na observação diária da classe de animais mais deplorável entre os humanos. Sua percepção será ainda mais valiosa que a leitura do presente opúsculo. O feladaputa é uma personagem lamentável. Mas acompanhar seus movimentos pode ser divertidíssimo como o roteiro de séries estruturadas em turning points surpreendentes.

Ao feladaputa, nosso brinde de gratidão por ensinar-nos tanto sobre as piores possibilidades em todos nós.

A senha

delphine

Ela se virou dentro da bata-vestido florida que cobria o corpanzil como uma capa de botijão de gás e, de costas pra mim, disse: “Se eu falasse o que realmente penso das pessoas, ninguém mais olharia na minha cara.”

“Pra mim você, por favor, me diga tudo-tudo. Vim aqui pra isso.”

“Você gosta de jogar, mas não curte o jogo da vida, olha só! Esse jogo que não se vende em lugar nenhum, que as regras todo mundo conhece. É tudo jogo, rapaz! Essa nossa conversa, também.”

O cheiro azedo do ambiente me lembrava de que aquele lugar era extensão do organismo da habitante.

“Mas você veio aqui pra saber exatamente o quê?”

“Eu preciso me lembrar de uma coisa. Uma coisa importante que eu não tô conseguindo. Uma senha. Me disseram que você consegue entrar dentro da nossa mente.”

Ela me indicou a mesa no meio da cozinha com um gesto de cabeça enquanto tirava um cigarro do maço e acendia numa boca do fogão.

“Não sou eu, as energias é que se conectam comigo. Elas passam por todo mundo. Os pensamentos atravessam a gente que nem sinal de celular. Eu consigo ouvir as ligações. Só isso. Não adivinho nada, entende, cara? Esse dom eu não tenho.”

“Deve ser divertido.”

“Eu nunca saio daqui. É difícil. Tenho que precisar muito, sabe? Andar na rua é um martírio. Um sufoco!  Fico lendo as pessoas que passam. Todas! Escuto, vejo coisa que, eu te juro por Deus e tudo quanto é mais sagrado, eu nunca gostaria de saber.  Nunca, mesmo! É um inferno. Até costumo sair de óculos escuros porque o contato visual é muito angustiante, sabe? Não é divertido igual a passar o dia jogando. Você não cansa de jogar?”

“Só sei fazer isso.”

“Mentira. Você sabe fazer muita coisa. Inventa equipamentos. Desenha. Planejou um universo inteiro dentro de um computador. Que coisa bonita! Criou até uma língua do nada pra conversar com seu vizinho e os outros amigos não entenderem.”

“Preciso dessa senha que não consigo lembrar. É importante.”

“Não tenho acesso a coisas esquecidas.”

“E como você revelou lembranças da infância para uma pessoa que não se lembrava mais de nada?”

“Não me lembro disso, não. Foi ela que te mandou aqui?”

“Era eu. Faz bastante tempo isso.”

“Tem coisa que é melhor esquecer.”

“Mas eu não quero! Me fizeram lavagem cerebral. Eu preciso lembrar!”

“Se eu fizer isso, vão me matar.”

Quando olhei dentro dos olhos dela. Bem dentro da pupila acinzentada no meio da esclerótica amarela, ela saltou da cadeira e correu até a porta do pequeno banheiro ou uma despensa ou sei lá o quê, mas escorregou antes de abrir e se estatelou no chão.

“Eles vão me matar!”

“Não vão, não. Você já tá morta desde que entrou aqui, Alzira. Me dá essa senha, por favor!”

“Eu não posso!”

“Pode, sim. Você sabe que, se me disser, o sofrimento de todo mundo acaba. Inclusive o seu. Você quer ficar pra sempre picando cebola na cozinha desse hospício?”

“Estou segura aqui. Protegida dessas energias assassinas!”

“Alzira…”

“221903014””

A última coisa de que me lembro foi do Dr. Navarro entrando na cozinha com dois enfermeiros fortes que me carregaram até uma sala com um sofá vermelho. Me pediram para sentar e esperar em silêncio. Depois de um tempo sozinho naquela sala, uma moça muito alta e magra entrou, me levou até um elevador que desceu até o que parecia ser uma garagem muito grande e me colocou dentro de um carro de cor metálica. Dentro desse carro tinha umas pessoas que não consegui reconhecer. Eram duas. Uma sorriu pra mim e disse: “Alzira, fica tranquila. A gente vai te levar pra um lugar muito melhor. Um lugar de paz, cheio de bichos e plantas, onde você vai encontrar gente igual a você. Ele nunca mais vai te incomodar. Eles pegaram ele graças à você. A senha era pra poder tirar ele de dentro da sua cabeça.”

Eu olhei para o meu corpo redondo, protegido embaixo de um tecido desbotado e encardido, com estampas de pequenas flores azuis. Tinha seios. Uma mancha roxa na coxa direita. Dor nos dois joelhos. Minhas unhas da mão estavam sujas e cheirando a cebola e cigarro. Fechei os olhos e vi linhas de código. Comecei a programar de cabeça. A última coisa de que me lembro antes de adormecer e acordar na poltrona desse avião onde a gente conversa agora, foi que tinha dado a senha errada pra ele.

 

Terapia

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Minha vizinha é antiquada como um telefone fixo, daqueles com a rodinha de discar. O marido dela está entre os 25% que trocam de celular todo ano. Formam o casal mais esquisito do quarteirão. Ela usa anágua. Ele não usa nada por baixo da calça. Dá pra perceber em detalhes toda a documentação de A.C., inclusive o detalhe de lhe faltar a capa protetora. Meu vizinho, maconheiríssimo, já me pediu fogo na calçada da nossa rua, em pleno final de tarde, quando eu passeava com o Alandelon carburando o Malborinho da happy hour.

“Só te dou fogo se rolar um tapinha.”

“Até uma palmada, se você quiser.”

“Safado”

Detesto maconha. Demorei metade da minha adolescência pra perceber que não era legal ficar chapada. Fumei só pra fazer charme pro vizinho hipster, o cheiro estava irresistível, eu amo esse perfume.

No início da minha vida profissional, quando eu ainda achava que trabalhar me levaria a algum lugar – e antes da maconha, é preciso frisar, porque dizem essa besteira de que ela leva a outras drogas – tive meu momento pó.

Lembro bem das madrugadas que atravessávamos na casa da Bia, cheirando e falando bobagem. Era um point de maluco onde se encontrava todo tipo de gente, até aquele gerente VIP do banco, todo engomadinho, que a gente nunca imagina que saiba o que é cocaína. Menos ainda que vai ver o cara aspirando carreiras tão gordas que fariam qualquer usuário enfartar, como aconteceu com o pai da Bia. Era produtor de televisão. Morreu na ilha de edição particular que mantinha em casa.

Pó é uma coisa assim: você vira amiga instantânea das pessoas. Arregaça a alma para  quem estiver do lado. Vai logo falando coisas que demoraria meses pra liberar até numa sessão de análise. Diz coisas que jamais confessaria a alguém que não fosse íntimo. Tipo que curte mais anal que vaginal, que sente tesão por cavalos e amputados, que se masturba pensando no Ronaldo Caiado e vergonhas do gênero. Coisas com as quais você, que me ouve, já deve estar acostumada.

A gente também fica se achando muito esperta quando tá cheirada, sabe? Dá palpites sobre assuntos que não conhece, como um idiota de rede social respondendo perguntas do gênero “Romero Brito é arte?” ou “Por que pra ser galã global tem que fazer a pontinha?”, em referência ao procedimento de rinoplastia que afila a ponta do nariz de atores da Globo. Investe tempo precioso de vida quando poderia estar fazendo coisas úteis ou verdadeiramente estimulantes.

Pó, ácido, êxtase, tudo passou pela minha vida e foi embora levando parte preciosa do meu tempo, do meu dinheiro e provavelmente um naco do meu cérebro, parte que menos me faz falta, tenho que admitir. O álcool e o tabaco estão comigo até hoje. Pelo jeito, até a cova.

Também gosto de roubar. Roubo desde criança. Acho que isso eu ainda não te contei. Sempre pequenas coisas, sem importância. E nunca, jamais, de amigos ou conhecidos. Tenho um código de conduta rígido. Bandidos tem muito mais moral do que o cidadão comum imagina. Roubo, sobretudo, em lojas. Pego as coisas que quero, pelas quais não posso ou não devo ou não quero pagar. Sou ótima nisso. Tanto que nunca fui pega. A aparência ajuda muito também. Cara de bem-nascida, bem-criada, bem-vestida e num carrão de 300 mil dinheiros.Quem desconfiaria?

Matar é hábito recente. Verdade que ainda não matei ninguém, só cachorros e gatos. Foram muitos. Bastante. Ontem mesmo, envenenei umas pombas que infestavam as imediações da área em que costumo estacionar. Tenho planejado alguns abates. Gente importante. Políticos, artistas, uns primos empresários aí, que é pra dar mídia e limpar um pouco o mundo. Até o recém-nascido de alguém que eu odeio. Odeio! Ele não vai deixar descendência! Não vai!

Mas pretendo fazer tudo muito bem feito, sabe? Pra parecer natural. Pensei em envenenamento. Acho luxuoso. E como tenho sangue russo, essa coisa, eu… Bom, o veneno é perfeito. Não deixa vestígios. Leva uns 50 minutos pra fazer efeito. Tempo da nossa sessão. Parada cardíaca. Fulminante! Como eu preciso praticar, coloquei no recheio desses bombons ma-ra-vi-lho-sos de cupuaçu que trouxe da minha viagem a Manaus. Sim. Um deles você comeu no início da nossa sessão, né? Tava gostoso? Como você interpreta isso, Maria Alice? …Maria Alice? …Maria… Ma…

“Meu Deeeeus! Socorro! Alguém me ajuda aquiiii!”

Democracia 2.0

democracia 2.0

O senador limpou o nariz e soltou todo o fôlego antes de aspirar com força a carreira de cocaína que o assessor tinha deixado esticada pra ele apressadamente sobre o mármore da bancada da cozinha minúscula do gabinete para se juntar, correndo, ao grupo de gerenciamento de crise reunido na sala adjunta ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, no térreo do edifício. Assim que os últimos grãos do pó brilhante foram sugados pela narina direita, com o amargor já lhe descendo a garganta, o senador foi ofuscado por uma luz que vinha da janela como o clarão de uma bomba nuclear.

“Se o senhor estiver me entendendo, pisque o olho direito, senador… não esse, senador; esse é o esquerdo… o senhor consegue piscar o direito?”

“Sempre tive esse probleminha com direita e esquerda”

“O senhor consegue falar?!”

“O que eu tô fazendo aqui?”

“O senhor sofreu um AVC devastador”

“Quando?”

“Há quase seis anos”

“É brincadeira? Pegadinha?”

Assim que a notícia correu o hospital, uma junta médica invadiu o quarto e sequestrou o político para a bateria de exames, antes que a Polícia Federal desse as caras. Ele não imaginava que suas estripulias financeiras e a conduta criminosa com dinheiro público haviam sido condenadas pela Justiça. Tampouco que seu foro privilegiado tinha se esvaído junto com o cargo. Também não passava pelas sinapses entorpecidas que parte de sua fortuna evaporara com o dólar, varrido da face da terra por manobra de autoridades norte-americanas para manter a solvência do país, diante de uma dívida pública impagável.

Políticos são uma raça em extinção que se vai em boa hora. Antes de retalharem de vez o planeta nos balcões de negócios, a seleção natural do deus-mercado fez esse favor à humanidade. Ia acontecer de qualquer jeito. Eles se tornaram um objeto inútil no organismo socioeconômico, uma versão distópica  de himens e dentes do siso com enorme aporte calórico. Ficaram muito caros.

Como um dos últimos jornalistas humanos, presenciei o fim de uma era. A supremacia dos dados que transformaria tudo, logicamente também transfigurou a face da democracia. Completamos a transição da estatística rudimentar – para a qual partilhávamos meio frango, mesmo eu tendo comido um frango inteiro e, você, nenhum – para a métrica de precisão digital.

Tudo começou no Brasil com o aplicativo Ágora que agregava sugestões dos usuários e as enviava como críticas ou elogios a deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores. O app ficou tão popular pelo mundo que foi se sofisticando até tornar-se o principal canal de comunicação dos eleitores com o poder público. De repente, a função dos políticos, já esvaziada de sentido, foi caindo em desuso planeta afora.

Quando se cogitou colocar um terminal físico que se conectaria com o aplicativo no lugar de um deles, morto numa queda de avião junto com o suplente, iniciou-se uma experiência de democracia direta que Sócrates teria adorado. Representados representando também o papel de seus representantes, como num jogo de RPG. A gameficação da política era realidade. Câmara e Senado começaram a derreter. Ao longo de três anos, todos os políticos seriam substituídos por terminais eletrônicos baratos, confiáveis, fiéis em seu eco às vozes da rua.

Quando os acontecimentos pareciam seguir o caminho previsto, descobrimos que na ditadura das massas tudo também pode acabar em pizza, pão e circo: os aplicativos de milhões de cidadãos estavam sendo hackeados, deturpando fatos e, naturalmente, as consequências. A narrativa não era orgânica, portanto, mas roteirizada por um pequeno grupo. Nada mudara em essência. Era como se uma espécie de PMDB planetário conduzisse o processo que se acreditava democrático.

Quem? Como? Quando? Onde? Por quê? Entre inúmeras histórias, como a da cena lá do início, eu conto tudo no meu novo livro Fascismo 2.0 – a ditadura das massas chegou para ficar, terceiro lançamento não escrito por robôs na lista dos mais acessados. Leia. Os terminais públicos ainda o disponibilizam. Aproveite, porque o Facebook, novo proprietário do Ágora, acaba de adquirir também os direitos autorais sobre a história da humanidade. Todas as versões alternativas à história oficial serão sumariamente deletadas do sistema global. Acesse ainda hoje! Depois, não vá dizer que eu não avisei.