Democracia 2.0

democracia 2.0

O senador limpou o nariz e soltou todo o fôlego antes de aspirar com força a carreira de cocaína que o assessor tinha deixado esticada pra ele apressadamente sobre o mármore da bancada da cozinha minúscula do gabinete para se juntar, correndo, ao grupo de gerenciamento de crise reunido na sala adjunta ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, no térreo do edifício. Assim que os últimos grãos do pó brilhante foram sugados pela narina direita, com o amargor já lhe descendo a garganta, o senador foi ofuscado por uma luz que vinha da janela como o clarão de uma bomba nuclear.

“Se o senhor estiver me entendendo, pisque o olho direito, senador… não esse, senador; esse é o esquerdo… o senhor consegue piscar o direito?”

“Sempre tive esse probleminha com direita e esquerda”

“O senhor consegue falar?!”

“O que eu tô fazendo aqui?”

“O senhor sofreu um AVC devastador”

“Quando?”

“Há quase seis anos”

“É brincadeira? Pegadinha?”

Assim que a notícia correu o hospital, uma junta médica invadiu o quarto e sequestrou o político para a bateria de exames, antes que a Polícia Federal desse as caras. Ele não imaginava que suas estripulias financeiras e a conduta criminosa com dinheiro público haviam sido condenadas pela Justiça. Tampouco que seu foro privilegiado tinha se esvaído junto com o cargo. Também não passava pelas sinapses entorpecidas que parte de sua fortuna evaporara com o dólar, varrido da face da terra por manobra de autoridades norte-americanas para manter a solvência do país, diante de uma dívida pública impagável.

Políticos são uma raça em extinção que se vai em boa hora. Antes de retalharem de vez o planeta nos balcões de negócios, a seleção natural do deus-mercado fez esse favor à humanidade. Ia acontecer de qualquer jeito. Eles se tornaram um objeto inútil no organismo socioeconômico, uma versão distópica  de himens e dentes do siso com enorme aporte calórico. Ficaram muito caros.

Como um dos últimos jornalistas humanos, presenciei o fim de uma era. A supremacia dos dados que transformaria tudo, logicamente também transfigurou a face da democracia. Completamos a transição da estatística rudimentar – para a qual partilhávamos meio frango, mesmo eu tendo comido um frango inteiro e, você, nenhum – para a métrica de precisão digital.

Tudo começou no Brasil com o aplicativo Ágora que agregava sugestões dos usuários e as enviava como críticas ou elogios a deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores. O app ficou tão popular pelo mundo que foi se sofisticando até tornar-se o principal canal de comunicação dos eleitores com o poder público. De repente, a função dos políticos, já esvaziada de sentido, foi caindo em desuso planeta afora.

Quando se cogitou colocar um terminal físico que se conectaria com o aplicativo no lugar de um deles, morto numa queda de avião junto com o suplente, iniciou-se uma experiência de democracia direta que Sócrates teria adorado. Representados representando também o papel de seus representantes, como num jogo de RPG. A gameficação da política era realidade. Câmara e Senado começaram a derreter. Ao longo de três anos, todos os políticos seriam substituídos por terminais eletrônicos baratos, confiáveis, fiéis em seu eco às vozes da rua.

Quando os acontecimentos pareciam seguir o caminho previsto, descobrimos que na ditadura das massas tudo também pode acabar em pizza, pão e circo: os aplicativos de milhões de cidadãos estavam sendo hackeados, deturpando fatos e, naturalmente, as consequências. A narrativa não era orgânica, portanto, mas roteirizada por um pequeno grupo. Nada mudara em essência. Era como se uma espécie de PMDB planetário conduzisse o processo que se acreditava democrático.

Quem? Como? Quando? Onde? Por quê? Entre inúmeras histórias, como a da cena lá do início, eu conto tudo no meu novo livro Fascismo 2.0 – a ditadura das massas chegou para ficar, terceiro lançamento não escrito por robôs na lista dos mais acessados. Leia. Os terminais públicos ainda o disponibilizam. Aproveite, porque o Facebook, novo proprietário do Ágora, acaba de adquirir também os direitos autorais sobre a história da humanidade. Todas as versões alternativas à história oficial serão sumariamente deletadas do sistema global. Acesse ainda hoje! Depois, não vá dizer que eu não avisei.

Revelação

david bonazzi miolopordentro

“Eu gostaria de estar errado.” Foi a primeira frase que viria depois que ele disse “Vou te contar uma coisa que você ainda não percebeu. Ou não quer ver.” Tudo que ele me disse na sequência me deixou catatônica. Fiquei chocada. O tempo parecia ter parado.

Como não percebi aquilo? Todos esses anos vivendo ao lado dele e nunca percebi nada. Foi preciso ele me esfregar na cara o que sempre esteve na minha frente, debaixo do meu nariz! Não sabia até onde ia a vergonha antes de virar raiva que depois virou um grande vazio que engoliu os dias daquela semana triste e o que ainda sobrava até o final do mês.

Eu não sei como foi que eu sobrevivi.  Na verdade, não me lembro direito. Desse período sobrou muito pouco. E as poucas lembranças eu não sei até que ponto são reais ou imaginadas. Deletei quase tudo tão bem deletado que nunca mais consegui lembrar com certeza como foram aqueles dias de transição entre realidades.

Ele? Era como se nunca tivesse existido. Sabe aquelas histórias que contam as pessoas muito religiosas de quando encontraram com Deus? Pois a minha epifania foi ao avesso. Fui jogada em um buraco e deixada ali para morrer, fui sugada por um vácuo. Sentia muito frio naquela casa. E ainda era verão!

Naquele mesmo dia da revelação, acordei com o coração na boca depois de dormir por quase 24 horas. Precisei chamar a ambulância. Na verdade, quem chamou foi o vizinho que eu mal conhecia e raramente cumprimentava quando nos cruzávamos, mas que foi a quem recorri.

Fui diagnosticada com estresse pós-traumático. Me deram uma injeção e receitaram medicamentos. Comprimidos variados que tomei de manhã e de noite por mais ou menos uns quatro meses, quando as coisas começaram, aparentemente, a voltar ao normal.

Me sentia estranha. Como se não fosse eu ali. Parecia que tinha trocado de corpo. Agora, era outra. Na minha casa não tinha mais nem vestígio dele. Não tinha nada. Nem o cheiro. Nada mesmo. Ele tinha sumido. E, olha, eu acho bem curioso que não consiga lembrar direito da cara dele. Não sei nem até que ponto seus olhos eram mesmo azuis.  Foi preciso muita coragem, que demorei semanas para juntar, para conseguir ir até o cemitério. É uma pena que no túmulo dele não tenha nenhuma foto.

Release

hendrix grouppie 

Natural entre crianças e povos considerados primitivos, a nudez pode ser revestida de significados que variam de acordo com o praticante e o momento do ato. Sedução, inocência, subversão, desequilíbrio mental, entre tantos outros. No caso da aposentada carioca Jacira Ferreira Pinto, trata-se de pura solidariedade.

Desde que tirou a roupa em público pela primeira vez, em frente ao Palácio Guanabara, durante um dos atos de protesto dos servidores estaduais pelo não recebimento de seus salários, no qual acompanhava uma sobrinha e sua companheira, ambas professoras da rede pública, Jacira ganhou as manchetes e a atenção do Governador Pezão. Ele a recebeu em seu gabinete como porta-voz dos servidores, prometendo reverter a situação dramática assim que o caixa permitisse, embora nenhum contracheque tenha sido assinado.

Alçada a musa do funcionalismo-vestido-e-mal-pago pela mídia nacional, Jacira decidiu-se: usaria o corpo para dar voz a quem não tem. Estava criada a NUDEZ SOLIDÁRIA, ato performático que pratica sempre em meio a protestos para auxiliar a ampliar seu alcance midiático em apoio à causa em questão.

Como a performance pode ser enquadrada como ato obsceno, resultando em processo, ou mesmo prisão, sua próxima aparição não pode ser indicada em detalhes tais como data, hora ou local. Mas se você, amigo jornalista, está recebendo este release, é porque deverá acontecer no perímetro de atuação de seu veículo.

A próxima NUDEZ SOLIDÁRIA poderá ocorrer neste domingo, a partir das 14h, no centro do Rio de Janeiro, durante o protesto por ELEIÇÕES DIRETAS.

Ou, em Brasília, nesta terça-feira, às 11h, dentro do espelho d’água do Itamaraty, em meio à manifestação contra a expulsão dos ESTRANGEIROS QUE PARTICIPARAM DE ATOS DE PROTESTO POLÍTICO.

Ou, ainda, no coração da cracolândia paulistana, dentro do Eu que pipo e ele que pira, bloquinho carnavalesco que promete fazer seu CARNADÓRIA PARA UM PREFEITO FORA DE ÉPOCA, a partir das 16h do próximo sábado.

Fique atento, amigo jornalista. E não se esqueça de agendar fotógrafo/cinegrafista.

 

Drone

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Quando eu morrer, em 2068, serei cremado. Metade de minhas cinzas serão prensadas em um vinil com minhas doze faixas preferidas. A outra metade será colocada em um drone para ser espalhada nas nuvens sobre alguma montanha.

Esse drone não será guiado por ninguém, pois terá recebido um upload da minha consciência. O objeto voador serei eu. Ou melhor, uma continuação do que fui até o dia da minha morte.

Seguirá voando até chocar-se com algum outro objeto voador num acidente ou encontrar e reconhecer outras consciências em outros objetos e a um deles quiser transferir-se passando a ser parte de um consciente coletivo, acasalando-se por afinidade intelectual.

Naturalmente, o sexo será exclusividade das primitivas formas de vida orgânica animal; não seremos mais escravos dos desnecessários desejos da carne, nem submetidos à ditadura de vícios como a gula e o álcool.

Às consciências restarão a imaginação, a fruição estética e o amor em estado puro. Movidas a energia solar, autorreparáveis com grafeno produzido a partir de CO2 captado da atmosfera, seremos imortais enquanto der.

Quanto ao vinil, só deus sabe quem um dia ouvirá minha seleção.

50°C

beba-mais-agua

Em poucos anos, quem não morrer da morte morrida da velhice ou canseira da vida e nem de vírus ou bactéria ou d’alguma radiação malsã, será incinerado pelo calor do sol. Vai derreter e grudar no asfalto e virar chiclete de gente. Já quase não haverá empregos ou razão para sair de casa. E virá, então, o meteoro e a fumaça vai tornar o ar grosso de se respirar. A elite se mudará para o fundo dos oceanos, levando seus cachorros, empregados, assistentes, analistas, massagistas, terapeutas e videntes até uma área livre dos vulcões então em atividade intermitente, longe do Pacífico. Os homens-peixe dominarão o que sobrar da terra. Poucos lerão porque isso será desnecessário e tedioso numa sociedade dominada por símbolos audiovisuais. A música continuará. Os filmes também. E a religião. E a fascinação pelo sexo, por peitões e pelo pau maior. E a fofoca continuará. E o medo da morte. E a pressa em experimentar qualquer novidade que será esquecida ainda mais rápido do que agora, quase à velocidade do pensamento. E a política seguirá como sinônimo de corrupção.

 

Bilhetinho

film

Caro desconhecido, simpatizo pelos que purgam a pasta escura do peito com técnica e um sorriso. Percebi desde a primeira vez que nos encontramos que se refestelar com a lascívia da exibição compulsória também não é a sua. Cada vez que no meio da convulsão você chega e sai como se nem vento tivesse passado pelo recinto, me enche de esperança por um mundo melhor, mesmo sabendo que a essas alturas um mundo melhor muito provavelmente já não seja mais possível.

Essa é uma das manifestações mais bonitas de civilidade que tem me encantado. E o amor vai brotando no coração do silêncio. De repente, te percebo chegando ao mesmo nível de afeição que sinto por um livro querido e pelo amigo que já morreu. Provocando a ternura que o cachorro aleijado que mora na rua a caminho do meu trabalho me provoca, assim como a gata cega, velha e manca, tão linda, tão altiva, tão tranquila na sua escuridão debaixo do sol.

Quando me vem seu rosto de noite, segundos antes de afundar no sono, ou de manhã, sobreposto à paisagem correndo lá fora, através do vidro do carro, é o mesmo amor. Quase igual ao que sinto pelas horas que passaram para nunca mais no meio de uma noite úmida perdida em algum lugar da juventude. Intenso e misterioso como o perfume que uma árvore que até hoje não consegui decifrar exalava depois da chuva na região do antigo apartamento em que vivia minha mãe.

Sabe aquele plano B que não rolou e continua o nosso preferido porque ele somos nós? Então. Você está a uma cabeça de distância em porcentagem de afeto. Exatamente com a mesma quantidade de estrelas do álbum daquela banda de um fracasso só, que só eu e talvez mais duas dezenas de trinta conhecemos e amamos com fúria adolescente.

Eu, como você, também não me importo. Igual você faz, abaixo a cabeça e olho para o outro lado quando você aponta na esquina. E continuo te acompanhando depois que você passou, cuidando para que nada te aconteça até você desaparecer lá longe, aonde a rua desce e faz a curva. Da mesma maneira que já vi pelo retrovisor, mais de uma vez, você fazendo comigo. 

Dropout

ben

Na manhã, minha alegria se espraia 

ao meio-dia, tudo posso ver

chega a tarde e a cara contra o vento arde

à noite, angustias antigas me vem roer

A vida assim num dia passa

Quando, de repente, dou por mim,

o tempo, mais rápido que os relógios,

marcou outro ponto pro fim

Os versos vieram com os primeiros fios de incerteza e barba, depois ele nunca mais escreveu. Quando morria de ódio da vida pela qual deixava-se levar, tatuou uma marca com a ponta do cigarro no pulso esquerdo para não se esquecer. De tempos em tempos, olha para ela como se consultasse um relógio colocado ao contrário, lembrando na dor da brasa afundando a carne a determinação em escapar do inferno. É como se o tempo-invenção-dos-relógios se alargasse. Vive no purgatório. Conheceu o paraíso de vista. As coisas passam sem quase sair do lugar. E vem mais uma onda.

Desde que avançou a última fronteira, a sensação de flutuar sobre o abismo não o incomoda mais. Namorando a dissolução, perdeu a vergonha de cortejar o fim. Tem medo. Não tem. Tem medo. Não tem. É tudo luz e sonho. Volta nadando ao mesmo ponto. Hoje o mar promete. A vida também prometia e não cumpriu. O mar deu origem à vida, melhor não botar fé. Viver é aprender a não dar bola.

Já quis romper com tudo, mergulhando no autoexílio de alguma causa humanitária, sumir no mundo. Preferiu puxar o gatilho da loucura e descarregar-se de quem lhe fazia mal todo santo dia. Abusado sem dó. Torturado com crueldade por aquele velho doente, sempre fedendo a peixe e cachaça. Apartado do seu melhor. Roubado no que tinha de mais precioso. Sêmen. Sal. Cocaína. Camisa-de-força. Lençóis. O corpo do velho afundando no mangue. Comprimidos brancos. Amarelos. Cor-de-rosa. Poesia sobre fundo branco. Distorções ecoando contra muros imaculados de luz. Batia a cabeça na parede até expulsar os demônios lá de dentro, mas eles voltavam. Vinham em ondas. Dizem que as maldições não vencem a travessia do oceano. Não foi a viagem, foi o mar que fez com que atravessasse a si. Uma prancha o salvou. E Hendrix. E Tathagata. E o desequilíbrio, que gera todo movimento do universo, o levou ao outro lado do planeta.

A vida é como um game, cara. É só não atirar em cada inimigo que aparece do nada. O lance é se deixar morrer quantas vezes for necessário. Quando acabar, acabou. Ganha quem não sair do zero.

Reconhece a função transcendente do lixo que mantém tudo flutuando. Dessas misérias que transformamos em necessidade e vão levando o planeta ao estado de indigência. Lixo em excesso. Muito Lixo. Muita dor. Às vezes, a gente cai e vai fundo demais, mas sempre volta. Como uma garrafa pet. A dor, essa maldição que faz a gente flutuar. 

Já teve a manha de contar cada faixa pontilhada na estrada que desce desde a cidade na merda de um dia errado, a cabeça esfriando a cada quilômetro. Raspou o braço esquerdo nas pedras. Laranja sempre foi sua cor. Curtia umas nuances de roxo, até descobrir o azul royal. Alguns queloides apontam que o caminho continua pedregoso. No começo da noite, a futura cicatriz indica que continuará colecionando significados na pele como um céu de crepúsculo cruzado de fiapos coloridos. Tem estrela pra todo lado. Incontáveis. Faiscantes. Tantos universos, tanto nada repetido. Tudo cheio. Esse nada atômico que pira a cabeça da gente. Essa energia capaz de fundar civilizações.

Consulta mais uma vez o pulso. Suspira devagar, vento no rosto. Começa a subida do morro dentro da escuridão. Se deus existisse, seria mais fácil. Sobe na pulsação das cigarras, o peso que afunda os pés no chão deixa tudo mais presente. O caminho do meio é vazio. Nada importa. A mata atlântica vive por um fio. O pantanal seca. Um dia, a Amazônia inteira vai caber num xaxim. Há humanidade no movimento dos galhos que ele fica aliviado em não precisar contar.

A felicidade anda sozinha. A felicidade é uma moça emancipada. É um cara sem pressa. Um caminho torto. Cachorro louco, sem dono. Grão sem razão de existir. A felicidade é areia. É poeira. Ele ri. Ele corre. Ele salta. Lá de cima do morro, olhando as luzes que polvilham o vilarejo, ele solta um grito do fundo da caverna do peito.

A única certeza é de que amanhã começa hoje, como agora há pouco foi ontem. Cada folhinha, cada borrifo de espuma esperando o sorriso do sol outra vez. E de novo o mar, as ondas e a areia. A vida vale por tudo que carrega de estranho e único. Todo sofrimento um dia vai terminar. Por enquanto, no espaço de segundos, ele ainda existe.